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Um escritor é só uma Anitta que não sabe rebolar

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Gente que escreve pensa que é grande coisa. O cara aprende conjugação verbal, coloca um substantivo antes do adjetivo e, pronto, já se acha um gênio da raça.  É uma praga.  Depois de meses ou anos batucando o teclado, o escritor finalmente coloca um ponto final no texto e pensa: “Esse meu novo livro tem verdades tão profundas sobre a natureza humana que me aclamarão gênio antes da próxima quarta-feira, tenho certeza!”  Dá dó, claro, mas pretensão não enche o saco. O “Gênio”, no geral, é discreto e não incomoda ninguém. Quando rejeitado pela ABL, ele simplesmente se tranca no quarto e chora sozinho, o que é ótimo. Apenas personalidades muito sociopatas (ou MPB) saem pela rua gritando “Eu sou um gênio! Olha só, eu sou um gênio! Veja mamãe, sem as mãos! Ajoelhem-se, mortais! Olha pra mim! Gênio! Gênio!”.

Pior que o “Gênio” é o “Importante”. O “Gênio” tem consciência de que sua genialidade talvez só seja realmente apreciada pelas futuras gerações. O “Importante” não. O “Importante” tem absoluta certeza de que sua obra é capaz de derrubar governos e acelerar a marcha da história. E, ao contrário do “Gênio”, sua pretensão não é nada discreta: “Meu livro só vendeu dez exemplares, sendo que nove foi minha tia lá do interior de Minas quem comprou, mas agora esse governo fascista (ou esquerdista) neoliberal (ou coletivista) de extrema-direita (ou extrema-esquerda) está com os dias contados!”

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De vez em quando, o “Importante” e o “Gênio” se misturam e dão origem a uma espécie de Godzilla da Literatura, o escritor capaz de, sozinho, reescrever o passado e pavimentar a estrada para o futuro. O hospício está cheio deles. Procure o cara vestido de Napoleão. O “Godzilla” estará bem ao lado, traçando estratégias de batalhas e estudando como recrutar “influencers”.

Por tudo isso é que o “Diário Goncourt — Memórias da Vida Literária”, de Edmond e Jules de Goncourt, lançado pela editora Carambaia, é tão divertido e engraçado. Durante 36 anos, de 1860 a 1896, os irmãos Edmond e Jules registraram todas as fofocas, maledicências e egocentrismos dos literatos franceses.

Intelectuais como Gustave Flaubert, Émile Zola. Victor Hugo e Guy de Maupassant desfilam pelo livro e são tratados como as Anittas e Lady Gagas da época deles. Com a diferença de que Gaga canta melhor que Hugo e Anitta rebola muito melhor que Zola, claro. Sem o manto de solenidade que cerca o mundo das letras, os intelectuais franceses são revelados como de fato são: obtusos e confusos como qualquer um de nós.

Edmond e Jules de Goncourt também eram escritores, porém não tão bem-sucedidos quanto os seus colegas. E assim, dois pocinhos de revolta que eram, transformaram a inveja literária em arte e a vaidade intelectual em arma. O livro é divertidíssimo e deve ser lido como um grande anedotário da Alta Cultura Livresca. É só fofoca e maldade, mas não é exatamente isso que fazem com a Anitta, poxa?

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Iza e o Zola, o funk e Flaubert… é tudo expressão cultural, gente.  A diferença é que alguns têm fãs e outros só tem pretensão.

Fonte: R7

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